É bem verdade que nosso país tem
um histórico político que não nos causa orgulho, mas é verdade também que
estamos atravessando um momento político histórico que pode ser a grande virada
de mesa na doença congênita embrionária que nos assola.
Somos
o país que lutou pelo voto direto durante o regime militar, mas que “de
presente” ganhou uma eleição indireta.
O
histórico de luta pelas “Diretas Já” nos trouxe uma fase de transição, capaz de
dar um nó na cabeça de qualquer historiador mundo afora.
Tivemos
uma Assembleia Constituinte parlamentarista que aprovou uma Constituição
presidencialista por conta de conchavos políticos da época.
Nosso
país, como uma das maiores democracias do mundo, teve seu primeiro Presidente
da República eleito democraticamente, após um período de sombras, submetido a
um processo de impeachment que
culminou com a perda de seu mandato por meio de renúncia.
As
manobras políticas sempre representaram um motivo de vergonha a todos nós!
O
fato é que não sabemos votar.
Pregamos
a ideia de reformas política e eleitoral como necessárias para um ajustamento
do sistema de votação que atualmente propicia a manutenção de políticos por
anos e anos no poder.
É
pouco, muito pouco...
Sabemos
que o sistema eleitoral atual é falho e merece muitos reparos, já não atende
aos interesses de um processo eleitoral com a lisura essencial para que
prevaleça a “alternância” no poder.
A
corrupção é um câncer que nos coloca na “UTI política” e nos faz sobreviver
mesmo com diagnóstico de morte cerebral.
No
entanto, a permanecer o sinal de vida que se apresenta ao longo dos últimos
anos, com a condenação histórica de parlamentares em um esquema de corrupção,
bem como investigações isoladas que demonstram indícios de desmantelamento de
esquemas de licitações, poderíamos afirmar que estamos a caminho de uma
recuperação médica inimaginável.
O
país que foi obrigado a conviver com agentes públicos sempre a serviço dos
próprios interesses, agora estaria se reerguendo.
Essa
afirmação positiva da história é realizada em meio a uma onda de manifestações
que nos encheram de orgulho, pois, demonstrou que o povo brasileiro é capaz de
se organizar e reivindicar aquilo que o Estado tem obrigação de oferecer.
Em
meio a esse histórico momento, vivenciamos uma crise institucional pela qual
destacamos a intensa briga entre os poderes Legislativo e Judiciário (porque
não Executivo também) por um espaço maior de decisão política.
A
balança da tripartição de poderes está descalibrada. Somos incapazes de
regulá-la. Os poderes insistem em desequilibrá-la.
Nosso
país respira com ajuda de aparelhos!
Em
meio a essa crise ainda somos vítimas de uma apunhalada no coração.
Um
paciente com morte cerebral decretada e que respira com a ajuda de aparelhos,
agora inicia sua luta contra um golpe gravíssimo que atenta contra seu regime
democrático.
Um
deputado federal, condenado criminalmente, com decisão transitada em julgado (a
qual não cabe mais recursos), é submetido a uma votação secreta na Câmara dos
Deputados, a qual lhe garante o mandato parlamentar, mesmo estando preso após o
devido processo legal.
Como
alguém, condenado criminalmente, com direitos políticos suspensos, nos termos
do artigo 15, III, da Constituição Federal, pode continuar a exercer um cargo
público eletivo?
Essa
pergunta nem deveria existir! É um
absurdo pensar que seria possível tal situação.
Pois
bem meus caros, é possível, e o exemplo é atual, recentíssimo, de ontem, de
agora pouco...
O
deputado Donadon encontra-se preso em cela especial com direito a televisão e,
mesmo condenado criminalmente, sem direito a recursos, continua exercendo seu
cargo, com direito a todos os benefícios inerentes ao cargo de representação
popular.
Nosso
paciente está muito mal. Desacreditado por quem mais o ama.
Vamos
aguardar a notícia de sua morte? Preparar o luto?
Talvez
seja esse o sentimento: a desesperança.
Chamamos
nossos parlamentares de “ladrões” durante anos, mas continuamos a reelegê-los.
Agora
temos um parlamentar preso e, portanto, no devido lugar onde sempre apontamos que
deveria estar. Mas esse nosso discurso sempre foi despolitizado. Temeroso.
A
notícia médica é que com o tempo esqueceremos a ferida desse último golpe e
conseguiremos respirar normalmente após a crise institucional.
Nosso
paciente superará esses dois problemas, reagirá com maestria, pois é forte,
impávido.
O
remédio para isso é o coma induzido do esquecimento. A superação da doença pelo
esquecimento de suas causas. Como sempre ocorreu!
E
a morte cerebral?
Essa
já está decretada, sucumbe aos desmandos de uma política abodega, que nos
envergonha, despolitiza-nos!
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